palavra pra que te quero
Sunday, July 30, 2006
Sunday, July 23, 2006
Noite de Luísa
Subia rua, entre seis e sete da noite. Duas quadras para chegar em casa. Tudo até ali, até aquele prédio na calçada, era a redundância de todos os dias. Percorrer os mesmos pontos cegos, as ruas viciadas e - perfeito - chegaria em casa. Mas olhou para cima, diante daquele prédio, naquela calçada. A luz era escassa, era meio de inverno, mas sem dúvida que deu com o olhar desesperado de uma mulher jovem sentada no parapeito da janela do quinto andar, uma perna para fora, uma perna para dentro. Num momento ele se interrogou do gesto. No seguinte, não mais. Ela gotejava suor da testa, a boca meio aberta, aterrorizada. As pernas estavam nuas, os pés descalços, ela agora grudava as mãos no parapeito em que estava montada. Assim que se percebeu vista por ele, que ali estava parado, voltou o rosto num movimento rápido para o interior do apartamento. Estariam chamando à porta ou ao telefone. Voltou o rosto para fora, ele continuava parado. Ele lhe fez um gesto interrogativo com a cabeça, quase ao mesmo tempo em que ela lhe acenava vigorosamente com as mãos. Um vai-te embora suplicado enquanto olhava mais duas vezes para dentro. Era claro que o desespero dela aumentava. Talvez lhe batessem à porta. Ele quis ser prático, mas não se via porteiro, zelador, ninguém. Estava escuro e quem passava não via o mesmo que ele. A portinhola que fechava a entrada do edifício estava encostada. Ameaçou abri-la. No mesmo momento, lá de cima a moça girou, pondo-se em posição mais perigosa. Já se via a outra perna. Ele congelou o gesto e por hora qualquer intenção, mas sustentou o olhar nela. Então ela se aquietou, voltou à posição de antes, girando o rosto para dentro do cômodo e depois para ele. Assim, vigiado por ela que vigiava outra ameaça, esta vinda de dentro, ele se viu preso. Preso e ridículo, porque ninguém via o que ele via.
*
Espana com os dedos a poeira do casaco de lã que lhe cobria os joelhos. Fricciona com mais força, os ciscos não deixavam o tecido escuro. A pequena multidão atravessa a Rio Branco em direção ao Teatro Municipal. Mais casacos feitos o dela. Ela, no poste da esquina, diante do sinal. A multidão em direção a ela, às escadas do Teatro. Espetáculo das cinco horas. Em frente à Biblioteca Nacional acabavam de estacionar o tal gordini. Nada. Era um domingo frio de agosto, escuro, de vento daqueles que cortam. Repete o gesto de esfregar os dedos na lã do casaco. Puxa também mechas de seu cabelo, torce em cachos impossíveis. Eram cabelos lisos. Se fumasse, teria acabado com um maço. Os olhos no gordini. Ninguém desce do carro. Logo as pessoas entrariam, a frente do Teatro ficaria deserta. Os cambistas, flanelinhas e vendedores de balas perderiam a razão de se amontoar ali. E ela, exposta.
Sai o homem do carro, foco de toda tensão dela. Ele sai, mas nada é como combinado. Vai em outra direção. Antes de sumir pros lados mais esfumados da Cinelândia, faz-lhe o gesto que ela não duvidou. Ela olha imediatamente para trás. Acertara. O gesto dele dizia isso mesmo: seguiam-na. Imediatamente então vai de encontro ao cambista, entrega-lhe o magro maço de notas e pega o ingresso que em vão era negociado com duas senhoras. Embrenha-se na massa que já se congestionava na porta de ferro. Impacienta-se. A entrada era lenta, duas pessoas por vez, sob a conferência de funcionários do Teatro e alguns seguranças. Apesar das cotoveladas, entra sem dificuldades, protegida pela tropa de casacos escuros de lã feitos o que usava.
Entrou. Dirige-se imediatamente ao primeiro andar. Balcão Nobre. Entra no banheiro. Da janela deste podia-se ver a calçada da Rio Branco. Os homens não estavam mais lá. Agora era arranjar um jeito de sair dali. Não seria difícil.
*
(o conto continua...)


