palavra pra que te quero

Wednesday, March 03, 2010

Ver
Apertado demais? Expressão ótima. Se puder, fica desse jeito.

Apertado está, mais um pouquinho e dá para gozar assim.

É?

Fingi indiferença, mas parei com o lápis. Levantei um olho da prancheta. Gosta de sentir dor?

Não. É que eu tenho uns metaizinhos bem aqui onde essa corda aperta.

Você tem piercing bem aí (a indiferença não cabia mais)...

Um não, dois. Tem pouco tempo, fiz para um cara que queria fotografar. Acho que agora descobri mesmo pra que serve isso.

Ela, com a calcinha mínima de couro, enfiadíssima, cordas puxando-a do meio das pernas ao pescoço, as mãos amarradas juntas, presas para cima em um gancho que pendia do teto com a roldana mais rústica que eu pude encontrar. E piercings genitais. Essa menina é incrível.

Já vai acabar. Posso ver?

O quê?

O piercing.

Só se for pros seus desenhos ou pra foto. E sai mais caro. Só ver, não pode.

Nem pagando? (cínico, torpe).

Meu negócio não é esse. Se você quer, posso te indicar umas meninas.

Mas eu só quero ver.

Elas também só mostram, se é que o cliente quer. Acabou? Já deu a minha hora.

Está na hora sim. Ajudo com as cordas. Não ficou marcada, ficou?

Isso sai.

A luz de um sol fraco entrava pela janela, esgazeada pela poeira e a cortina transparente. Cortava o perfil dela, as curvas rebatiam aquela luz na pele, a pele sugava o brilho. Nunca vi ângulos assim, esgrimirem bem assim qualquer qualidade de luz. Não os de uma mulher. Foi o que me chamou naquelas aulas do liceu. Ela era o modelo vivo mais sorvido em si mesmo, mais nua, era toda um corpo e só um corpo. E as curvas trabalhavam extraordinariamente bem aquela claridade indecente da sala de aula. Quero para mim, pensei.

Você posa pra mim? No meu ateliê?

Onde fica?

Gamboa, Ladeira do Livramento.Sabe onde fica?

Por quanto?

Não sei seu preço...

Duas vezes por semana? Assim pode ser mais barato.

Dez a hora?

Não. Por quinze pode ser.

Bom. De três às quatro?

Não. De cinco às seis, segundas e quintas. Dá?

Fechado. Amanhã é quinta. Começamos amanhã?

Começou assim. Quatro vezes por semana ela era concretamente a menina dos meus olhos. Duas nas aulas de desenho do liceu e duas no meu ateliê, que de fato é a minha casa. Você mora aqui? foi a primeira coisa que ela, que não fala quase nada, disse, quando entrou. Não dá pra esconder que aquilo é só um quarto e que moro e trabalho nele. Mas tem uma boa janela, vista razoável, já que fica no meio da ladeira. Se subir numa cadeira, dá até para ver o porto, com seus navios de carga.

É, moro aqui. Gosta?

Trabalho aqui perto, na boate da praça. Pego lá assim que saio daqui.

Mesmo? Qual boate? O que você faz lá?

Danço.

Não respondeu em qual das boates, deve ter no mínimo umas cinco só na praça. Perguntou o que era o que era pra fazer e calou. Não que fosse tímida, era quieta. Um silêncio descarado, afiado. Era muito solene quando se expunha, toda trabalho Me deixava quase constrangido, a putinha. Poucas vezes vi alguém tão concentrado numa tarefa. Naquele primeiro dia não foi preciso muita coisa, só a posicionei de modo que me revelasse mais os músculos dos braços e coxas. Precisava de vigor para Agnes, a guerreira. Essa personagem me perturbava há dias, trabalhava nela sem resultado que valesse. Uma história em quadrinhos que me encomendaram.

Resolvida Agnes, vieram outras heroínas. Personagens pornôs, guerreiras góticas, guerreiras asiáticas. Em quatro semanas trabalhei profusamente, magnetizado, mais que pelo corpo, pela concentração dela em se mostrar, roubando-lhe sem pudores a devoção ao próprio ofício. Competente, talvez, mas dedicado nunca fui.

Ela haveria de ir e ir tão rápido quanto chegou, esqueci de tão embebido. Ao mesmo tempo, parou comigo no ateliê e saiu do liceu. Em seu lugar, puseram uma menina bonita, mas inexperiente e irriquieta. Era o deleite dos alunos e minha ruína como professor. Tinha arroubos de impaciência e rispidez. Não era tanto por causa da modelo nova. Não era nada por causa dela.

No dia em que ela se foi, me disse de uma vez:

Vou sair do liceu e não venho mais aqui, posar para você.

Calei por dois segundos e não levantei os olhos da prancheta. Ela se vestia, terminada a sessão. Queria agarrá-la e torcer-lhe o pescoço.

Muito trabalho? Coisa melhor?

Algo assim. Respondeu com indiferença. Ainda vou continuar por aqui uns tempos, na boate.

Era a última oportunidade: Onde você dança? Já perguntei, você não disse. Gostaria te de ver.

Não ia gostar do lugar. Além disso, não misturo as coisas. Você não é tipo que frequenta essas boates, nunca te vi no meio.

Gostaria de te ver, só isso.

Você gosta de me ver aqui e no liceu. Seu negócio não é me ver na boate, isso é para outros caras. Não está proibido de procurar, faz o que quiser. Mas não ia gostar.

Dito isso, já pronta, estendeu a mão para o pagamento do dia e saiu, calada como em todos os outros dias. Fiquei com a secura das palavras dela, sábias e exatas. Confiei que ela tivesse mesmo razão e nunca tive a coragem de procurá-la. Nem no auge dos meus porres, delirando de saudades e desejos de posse. Estava certa a putinha: o que eu queria ver, ela não abriria a luz alguma.

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