*(meio e final)
Luzes acendem e apagam, acendem mais forte, mais rápido. Ofuscam seus olhos castanhos que, soltos nas órbitas, descoordenam, não encaixam a cena atrás e diante dela. De cima, ou pela frente, aquela imagem com mais de três dimensões vem a toma inteira. Alguém, possivelmente o homem, o homem imenso, de capa e capuz que monta em cima dela, tão frágil, suja a pele dela com sua sujeira visguenta e ela sem roupas, engolida pela capa do homem, devorada junto com sua sujeira. Um tempo de silêncio. Um tempo de nada. Depois o corpo dela triturado, ainda vivo, é cuspido em um túnel cavado no chão. O túnel não acaba, ela pensa enquanto cai. Espera o chão, a terra, o fim.
Luísa salta da cama, gira o pescoço para todos os lados do quarto, a janela, a porta. Esfrega com mais potência os dedos pela barra da saia de lã, a poeira renitente. Com a outra mão torce mechas de cabelo, tramando cachos impossíveis.Duas gotas de suor corriam a têmpora direita. O cochilo não passara de vinte minutos. Consulta o relógio de pulso. Vinte horas e seis minutos. É tarde demais, tarde demais, tarde demais, o pensamento lhe martela. Atira-se porta a fora numa correria pelas escadas, barulho que assustou o porteiro. Tinha que ser sempre discreta, invisível, lembrou. Passa mais calma pela portaria, dá boa-noite. Ganha a calçada, corre ao primeiro telefone público que vê.
Estava ocupado.Um grupo conversava ruidosamente enquanto um deles falava ao telefone. Luísa puxa forte a barra da saia de lã. Sua apesar do frio, saíra sem o casaco escuro que lhe cobria os joelhos. Refaz-se. Novamente impassível, como se lhe apertassem um botão de controle. Fica encostada numa árvore, espera até que os jovens se afastem. Passa por eles, agarra-se ao aparelho de telefone agora livre. Disca o número do comando. Ninguém atende. Disca novamente a voz feminina responde do outro lado. Luísa pergunta por Filippo. Por que, quis saber a voz. Ela tenta dizer alguma coisa, a voz lhe interrompe brusca: que ela esperasse onde estava, não ligasse antes das nove da manhã do dia seguinte. Um silêncio breve e abafado, confusão de vozes do outro lado. Luísa tem audição acuradíssima, distingue a voz de João. Ele perguntava à mulher, que ao certo tapava o fone, se era Luísa, dizia algo sobre lhe darem atenção. Por que quer saber de Filippo?, a mulher retorna a Luísa. Outra vez sem esperar resposta, continua: ele aguarda contato em outro lugar, espere onde está, não ligue para nós até amanhã, na hora combinada. Se algo acontecer antes, você será informada. A mulher desliga o telefone.
Luísa larga o fone e corre o mais rápido que pode até a entrada do prédio. Sobe ao apartamento. Agora uma constrição em todo o corpo, um tormento, algo lhe grita forte que Filippo poderia estar à procura dela em desespero, quem sabe já no apartamento. Ele sabe onde ela está. Ele não está aqui, diz para si mesma depois de olhar todos os pedaços da pequena garçonière. Recobra mais uma vez a calma. Deita na cama de casal.
*
João fica inquieto com o telefonema de Luísa. Proibiram-no de falar com ela. No momento em que ela ligou, João estava numa reunião relâmpago que o comando convocara naquela mesma noite. As coisas não iam bem. Tudo mudara, mas por enquanto para Luísa as coisas permaneceriam paradas até o dia seguinte, ordens do comando. Por isso não a chamaram para aquela reunião. Consideraram que estava em segurança, não suspeitaram riscos imediatos para ela naquele lugar. No entanto aquele telefonema, tão sem propósito. Um traço de dúvida ia se levantar. Esqueceram logo. Apesar de cegamente competente, Luísa tinha uns repentes estranhos. Tinham plena confiança nela a despeito das esquisitices.
Na volta para casa, João pensou em Luísa. Nada sabia da história dela, nem quais eram suas relações exatas com o comando daquele grupo de operações de esquerda. Ela era chamada para as operações arriscadas e quase sempre em ponto de decidir. Sumia, não mantinha comunicação com ninguém, mas o comando tinha grande facilidade em acioná-la. João sabe que é importante só deter dos companheiros as informações e gestos de fato relevantes, o que servisse num momento crucial ou algo que fizesse deslindar um ponto parado num plano. Luísa intrigava João de maneira nada interessante ali. Intrigava-o a sua falta de substância, mais do que os tantos segredos que guardaria, segredos ou histórias que ela parecia nem ter. Não sentia nela a mesma fome, a mesma gana que compartilhava com os outros companheiros, embora todos soldados, prontos às ordens, fiéis. Estavam ali por aquela fome que ia além deles, que lhes fazia acreditar e meter as suas vidas na linha de fogo. A fome de Luísa não era essa. Ela não parecia estar ali pela causa. Não estava ali por causa de nada.
Ele via a imagem plana dela, não se convencia . Aquilo ficou mais pontiagudo quando entreviu uma centelha, coisa ligeira, mas viva. Um certo apego que Luísa manifestou por Filippo, nas duas operações em que estiveram juntos. Não era nada de mais: ela sorria para ele e tentava olhar nos olhos, queria alongar as frases. Filippo não dava pela coisa, mas João, que observava, apanhou aquele a mais nos olhares dela. E agora o telefonema sem propósito, coisa que todos sabiam ser arriscada, sandice. Desconfiou que Luísa desatinava, precisasse talvez de ajuda. Se pudesse, iria ao seu encontro.Mas isso era sandice muito maior.
*
No apartamento da Cinco de Julho a hora não passa. Tinha o que comer, mas Luísa não sente fome. Num instante, sua angústia quase a leva ao descontrole; noutro, paradoxalmente serenava e caía no sono rápido de sonhos bizarros. Acorda, rememora cenas. Os lampejos de memória se juntam, embaraçam uns nos outros até que formam um quadro completo, a princípio sem significação.
Luísa se vê abordada por um homem distinto e alto, ao sair de uma sessão de cinema na Cinelândia no dia anterior. Noite de sábado. O homem a abordou de forma gentil, mas seco. Não deixou dúvidas de que ela deveria segui-lo, ouvir o que ele tinha a dizer. Sentaram-se num bar onde havia movimento. No início ela se preocupou com a exposição, mas entendeu que era melhor assim. Ele começou a falar sobre ela. Pedaços de sua história: Cecília, Luísa, Dolores, Daniele e quem mais ela já fora. Luísa, muito eficaz no auto-controle, manteve o rosado natural de sua tez. Não enrubesceu nem perdeu a cor, embora um leve desconforto a fizesse percorrer o olhar pelo ambiente, esquadrinhar o quanto estava acuada. Calculou cuidadosa quais eram suas chances no caso de fuga rápida. O homem falava manso. Luísa recuperou a frieza quando entendeu que ele só sabia dela pois fora enviado pelo comando, por quem chefiava a organização. Cerqueira. Não havia mais quem soubesse tanto dela mesma. O que o homem queria era com ela. Ele contou passo a passo a parte de Luísa na operação sobre a filha do deputado. Disse então que o comando, o próprio Cerqueira em segredo, teve de negociar a filha do deputado com os homens do general. Isso logo depois que a operação fora planejada e confirmada, cada um do grupo com sua parte.
Luísa concentrou-se inteira na voz do homem, não via o rosto. Ele continuou. O general tinha interesse urgente em eliminar o pai da moça. Eram desafetos antigos. O general não tinha certeza das ligações do deputado com organizações subversivas, mas a filha estava metida nisto, ele interviera para que a polícia soltasse, protegera amigos dela e gente da família com envolvimentos suspeitos. Perdeu completamente a confiança nele, coisa que já andava frágil há tempos. Com um grupo não ligado à polícia ou às forças armadas, resolveria de vez a coisa.
Conseguiram informações sobre seu grupo, sobre a operação. Vão pegar a filha do deputado, no momento exato. De posse da filha, os do general querem atrair o pai. Como já disse, continuou o homem, a intenção é matá-lo de imediato, sem levantar a suspeita para eles. Então o homem olhou direto nos olhos de Luísa: está combinado com o comando que a operação de proteger e embarcar a filha do deputado para o exterior será desmanchada, mas ninguém do grupo saberá. Ninguém exceto você, ele repetiu. Coisa muito importante, tanto para os do general quanto para os da organização para a qual você trabalha. Por enquanto todos, sobretudo você, devem obedecer as instruções recebidas, seguir com a operação. Faça o que você já sabe que deve, disse firme a Luísa. Amanhã depois de tudo abra este envelope. Você está salva. Eu disse que o comando negociou a filha do deputado, não foi isso? Você foi a troca, Luísa. O comando quer assim. Ele, seu chefe, a espera. Quanto aos outros, não há garantia alguma. Ele quer que você sobreviva. Este grupo vai se dissolver, mas por enquanto nada. Ninguém deve saber. Faça o que tem que ser feito.
Passou o envelope de papel pardo às mãos de Luísa, que imediatamente o guardou na pequena valise que levava. Ele não deu tempo para que ela formulasse perguntas. Mas Luísa quase não pondera, não questionaria nada. Todo o dito ali era em tom de ordem. Cerqueira queria assim. Deveria obedecer. Somente. O homem se levantou da mesa, Luísa também. Tomou uma direção e Luísa a oposta.
*
Luísa levanta da cama, vai até a sala. Pega o envelope de papel pardo que lhe fora entregue na noite anterior pelo homem enviado por Cerqueira, pelo general, já não sabia ao certo. Olha com mais calma o conteúdo. Estava lá tudo o que deveria fazer. Ficar no apartamento da Cinco de Julho para não levantar suspeitas. Nenhum movimento até nove horas da manhã seguinte, quando deveria ligar para o comando pela última vez antes de seu embarque. Havia um passaporte, passagem de avião para a noite de segunda. Endereço e informações de Portugal e um outro papel com mais nomes, números, direções e alguma quantia em dinheiro. Desaparecer mais uma vez. Agora desaparecer como Maria. Era esse o nome que estava no passaporte.
Luísa pára diante do nome que, aos poucos, chamou a memória. Era seu nome de batismo. Seus pais a nomearam Maria das Graças. Era coincidência, o nome do passaporte era de outra. Assim mesmo seria estranho se chamar novamente Maria. Ela esquecera por um tempo.
Voltou à cama de casal, agora que se sentia frouxa nas pernas e idéias.
Luísa lembrava pouco de quando fora Maria das Graças. Ninguém falava, quase ninguém sabia. Aos treze anos teve de ir com os pais, fugidos, para um acampamento clandestino numa fazenda no interior da Argentina. De lá subiriam os Andes. Ela não sabia de nada, por que os pais andavam de lá para cá, por que os dois irmãos ficaram no Brasil e enquanto que os pais foram com ela para a Argentina.
Havia algumas crianças no acampamento da fazenda, mas parecia certo que nenhuma delas iria acompanhar os que seguiriam viagem. Nem mesmo ela. Seus pais a confiaram a um homem que não era velho, usava barbas e falava muito pouco. Porém, a olhava com atenção e gostava de puxar assunto com ela. Foi ele quem passou a chamá-la de Luísa, pouco antes dos pais seguirem. Seus pais pareciam ter muita confiança nele e algo que ia muito além de respeito. Chamavam-no de Cerqueira, nome que pouco era pronunciado. Cerqueira aparecia pouco no acampamento e quando isso acontecia era tudo envolto em muito zelo. Muito tempo depois Luísa entendeu que ele era o chefe daquela organização, e assim permaneceu mesmo depois de muitas mudanças.
Chegou uma certa noite, escura e chuvosa, e os pais de Luísa seguiram viagem com um grupo. Não houve despedidas e nunca mais Luísa soube deles. Por nada lembrava a última vez em que os viu ou o que lhe disseram. A partir de então Cerqueira encarregou-se dela, levando-a para várias viagens, lugares nem sempre claros e passíveis de recordação posterior. Deixou Luísa por dois anos com uma família na Argentina, numa outra fazenda, próxima a Buenos Aires. Cerqueira aparecia pouco, mas cuidava para que a família a mantivesse em extremo rigor. Outras crianças iam e vinham, mas ela permanecia e era tratada diferente. Ensinaram idiomas, além das coisas normais de escola da idade dela. Cuidavam também seriamente de sua saúde, exigindo dela exercícios físicos diários, puxados. Nadava muito e freqüentemente era levada para corridas nas montanhas, não importasse sob que condições de tempo. Luísa resistia a tudo e fazia poucas perguntas. Entendia que era mais ou menos isso o que queriam dela, obediência e silêncio. Só se dirigiam a ela para passar tarefas ou lições, fora isso muito pouco lhe falavam. Tratavam-na de Cecília. Para os da fazenda era Cecília. Quando Cerqueira chegava, voltava a ser Luísa. Mas nem com ele Luísa tinha abertura das perguntas ou conversas mais soltas. Ela não tinha medo dele, nem nada para lhe dizer. Não lhe ocorria perguntar sobre os pais ou sobre o que aconteceria a ela. A presença dele completava seus vazios e dúvidas, coisas que ela nem suspeitava, ruminavam seu sono.
Pouco mais de dois anos depois, ela com dezesseis anos recém completos. Cerqueira levou Luísa da fazenda argentina. Ficaram um tempo na Holanda, viajaram de modo estranho, corrido, com um grupo pequeno de pessoas que ela nunca vira. Antes Luísa participou do que seria sua primeira operação. No Rio de Janeiro, onde ficaram antes do embarque para a Holanda, simulou ser a filha doente de um casal, que passou por um de cerco de policiais numa rua, ao irem para um certo lugar. O carro que dirigiam foi parado, mas permitiram que seguisse.
*
Meia noite e quarenta, Luísa vê a hora no relógio de pulso. Levanta de um salto da cama, percorre os dois pequenos cômodos com a sensação de não ser a única ali. Pensa outra vez em Filippo, coisa que a sufoca. Como estaria àquela hora? Talvez o torturassem. Se o matassem, considerou, morreria por causa dela. Não queria que nada acontecesse a Filippo. Importava-se seriamente com ele.
*
Cerqueira ficou escondido algum tempo na Holanda. Manteve Luísa com ele, e ainda um pouco mais quando pôde sair de lá. Era cedo para separar-se dela. Algumas pessoas apareciam, ficavam um tempo e sumiam. Algumas doentes, outras gravemente feridas. Cerqueira dava destino a elas, tinha gente sua espalhada por muitos lugares. A Luísa ele reservava sempre pouca informação. Tudo o que ela sabia eram partes de outras partes, em poder de outras pessoas, outros grupos. Mas não duvidava de que Cerqueira sabia tudo. Ele continuava a cuidar da educação dela. Agora que falava com boa fluência cinco idiomas, demonstrava saúde exemplar e grande resistência física, o treinamento passou a um outro estágio. Fazia pequenas viagens com Luísa para lugares ermos, ficavam em casebres isolados, longe de outras casas e pessoas. Ensinou Luísa a atirar. Ela já tinha alguma noção, mas precisava entender de outras armas e condições mais complicadas. Ela se saía bem, ele elogiava. Sem nunca saber dos próximos passos, Luísa notava que o treinamento se intensificava. Um dia, incomum, ele disse ser preciso que ela aprendesse algumas outras coisas. Para melhorar sua resistência. Não precisava estranhar, era tudo parte do treinamento. Veio o dia que esperava, deixou-a sozinha no casebre. Não havia nada em volta, fazia muito frio e as provisões estavam no final. Ficou assim uma semana inteira, sendo que os dois últimos dias sem água e comida. Luísa ficava quieta em seu canto. Só tinha a confiança nas palavras de Cerqueira. Ele voltaria.
Cerqueira voltou, no final daquela exata semana. Outra vez além daquela deixou Luísa no mesmo estado. Adiava o retorno um pouco mais a cada vez. Ela conseguia passar bem pela fome e sede, recuperava-se rápido. A confiança em Cerqueira era brutalmente nutrida. Luísa delirava sozinha e nada via além dele, nada ouvia além de sua rara voz. Só queria viver para mostrar a ele que era capaz de esperá-lo. Não sabia nem nunca soubera por quê. Em uma dessas vezes Luísa passava já de cinco dias em jejum. Cerqueira a deixara por quase quinze dias com provisão que mal dava para uma semana. Quando entrou em casa, apanhou-a no canto em que ela costumava ficar encolhida. Ainda mantinha alguma lucidez, os olhos semi abertos, a boca seca esboçou um sorriso. Ele apertou as faces dela e disse, agora já basta, sei que você é capaz, mas ainda não sei de tudo que pode. Tomou-a nos braços e a amarrou na cadeira que ficava embaixo da ducha, do lado de fora da casa. Ela não seria capaz de manter-se sentada naquele estado sem tombar para o lado. Cerqueira abriu a ducha e a água desceu num jato fortíssimo, gelado. Luísa recuperou de imediato a inteireza dos sentidos, mas como não conseguia respirar com a água a lhe invadir as narinas, desmaiou. Cerqueira repetiu a ação por mais três vezes, aumentando a cada vez o tempo do jorro d’água. Quando viu que ela não voltava mais dos desmaios, parou. Enrolou-a numa manta, levou-a para o quarto já preparado com a calefação na medida certa. Depois de alimentá-la, deixou-a dormir. Tinha planos. Ela correspondia cada vez melhor às suas expectativas. Qualquer outra não teria resistido assim. Não depois de cinco dias sem comer. Luísa estaria logo pronta. Era preciso ainda forçar os limites que ela dava.
Cerqueira a observava em seu sono solto, entregue. Já fazia uma hora. Aproximou-se da cama, estapeou-lhe o rosto com violência. Ela custou a acordar e ele lhe bateu mais e com mais força. Quando ela conseguiu manter os olhos abertos, ele lhe falou. Era preciso que fosse naquele momento, era preciso que ela visse. Cerqueira sabia que Luísa estava inteiramente débil em suas forças, apenas um fio lucidez, se tanto. Consciência e textura de corpo perfeitas: não resistir, não ter a memória marcada com exatidão pelo que viria. Estava no ponto certo: molezinha, entorpecida. A realidade para ela não passava do timbre daquela voz, a voz de Cerqueira, que mudava, mudava. Mais suave, mais áspero. Precisava apenas que ela não dormisse. Fez com que respondesse e repetisse tudo o que fazia com ela. Agora você me morde, dizia ela, rasgou a minha blusa, abre minhas pernas, enfia os dedos no meio das minhas coxas. E assim por diante, Luísa repetia, ao comando de Cerqueira, todos os passos dele, na violação dela.
Não era mais possível que a mantivesse virgem, era mesmo perigoso. Em algum momento fariam aquilo com ela se caísse em mãos inimigas. Era comum. Tinha de prepará-la para tudo. E Luísa tinha de estar pronta logo, não podia ficar refém de temores, surpresas fortuitas. Agora ela conhecia melhor as armas do inimigo. Resistiria à fome, abandono, dor, humilhação. Assim Luísa realmente nasceu. Não era mais a pequena Cecília, como a chamavam na Argentina. Pronta para ser Eduarda, Dolores, Daniele, Fernanda.
*
O medo e a imprecisão das imagens que lhe vêm à cabeça, Luísa não sabe se memórias ou puro delírio. Não concilia sono naquele apartamento. Já passara por tantas privações, sobretudo de sono, mas alguma coisa agora lhe dá a medida ímpar do insuportável. Ela não conhecia aquilo. Quatro horas da manhã ainda, tinha de esperar até às nove para ligar para o comando. Ainda ansiava por Filippo. Teria resistido quando capturaram a filha do deputado? Mataram-no neste momento? Luísa se esforça para lembrar de algo que iluminasse, desse um lugar para aquele temor, ela não se reconhecia. Confusa, nauseada, quer chorar e gritar ao mesmo tempo.
Não consegue lembrar por que Filippo. Filippo fora bom com ela, repete para si mesma. Cerqueira também era tão bom, era tudo. Mas Filippo... ele uma vez a viu chorar. Não. Ela não chorava. Estavam de tocaia no escuro, numa beira de estrada esperando para atirar na Rural Willys azul que passaria por ali, perto da meia noite. Deitados juntos no acostamento, os corpos espremidos um no outro, ela começou a ter a reação involuntária característica daqueles momentos de espera. Esfregava sem parar os dedos na roupa, como que para limpar sujeira e, com a mesma mão que segurava a arma, torcia mechas de cabelo na nuca, hora com violência, hora com suavidade. Filippo olhou para ela. Sorriu-lhe. Com medo, companheira?Você?! Vai dar tudo certo. Segurou apertado a mão dela, a que esfregava a roupa limpando a sujeira inexistente. Ficaram assim até que a hora certa encostou. Precisavam manter a prontidão. Luísa esforçava-se em lembrar de outro momento, outro como aquele em que estivesse com Filippo. Mas não havia. Não havia mais nada.
*
Ela nunca perde o controle porque ele, o controle, nunca a deixa. Estivera sempre ali, bem ao seu lado, no seu encalço. Cerqueira, Cerqueira o tempo todo. Já passa das nove da manhã. Luísa não tem coragem de sair daquele canto de parede que escolheu, o canto logo abaixo da janela da sala, onde, subindo um pouco a cabeça podia ver o movimento da Cinco de Julho. Era segunda feira. Nove horas da manhã, logo dez. Luísa não se desgruda do canto da parede. Já passara da hora de ligar para o comando. Deu de ouvir soar campainha de telefone, incessantemente. Põe-se a revirar o apartamento em busca daquele aparelho que não parava de soar. Não havia telefone no apartamento. Está certa de que a procuram. Os homens do general? Cerqueira? Filippo, que descobrira tudo e tencionava vingar-se dela?
*
José Henrique voltava do trabalho. Subia a rua, entre seis e sete da noite. Duas quadras para chegar em casa. Tudo até ali, até aquele prédio na calçada, era a redundância de todos os dias. Percorrer os mesmos pontos cegos, as ruas viciadas e perfeito chegaria em casa. Mas olhou para cima, diante daquele prédio, naquela calçada. A luz era escassa, meados de inverno, mas sem dúvida que deu com o olhar desesperado dela, sentada no parapeito da janela do quinto andar, uma perna para fora, uma perna para dentro. Num momento, ele pôde duvidar do gesto.
Luísa surpreende o olhar daquele homem parado nela. Ela vê inteiro Filippo, era Filippo que vinha atrás dela. E na porta, quem estava? Cerqueira? O general? Há alguém. E Filippo, pelos movimentos que faz lá embaixo, quer ajudá-la. Não veio se vingar dela, como temia. Mas poderiam pegá-lo, os que batiam à porta, se desconfiassem que ele estava lá embaixo, acenando para ela. Era preciso mandá-lo embora. Em silêncio, não podia fazer barulho para que não a ouvissem. Manda-o embora com gestos, suplica. Mas ele não vai.
José Henrique não sabia o que fazer. Preso e ridículo, porque não há ninguém que vê o que ele vê. A mulher está num surto ou transe, acredita ele. Ninguém para tirá-lo daquela cena, ele não consegue reverter nada.
Até que muito rápido, sem que precisasse no meio de que segundo ele, José Henrique, um completo desconhecido, foi a única testemunha da morte de Luísa. Uma queda. Do quinto andar para o pátio interno, na frente do prédio da Cinco de Julho.

