palavra pra que te quero

Saturday, August 05, 2006

(Noite de Luísa-continuação)

Num bar na Senador Dantas João liga para o comando. Conforme as instruções, deveria imediatamente ligar e dizer o código. Naquele momento João duvidou. Só teve tempo de ver que Luísa o vira e compreendera seu sinal. O que ela fez em seguida não tinha idéia. Agora mesmo ela poderia estar nas mãos daqueles dois que a espreitavam. O momento para pegá-la: a calçada mais densa de gente, Luísa vulnerável, esquecida da retaguarda, atenção toda no que acontecia à sua frente. Eles viriam por trás. Luísa é muito ágil, pensa rápido. Embora dúbia, líquida, um pouco atrapalhada até, João achava. Não importa, ninguém lhe pediu para decifrar aquela moça. Em situações extremas ela age muito bem, é o que basta. Atenderam do outro lado da linha. João diz “feito”, desliga o telefone e pega um táxi de volta para casa.
*

Na tarde daquele domingo João ficou em casa, conforme lhe fora pedido. Às quatro e vinte e cinco o telefone toca. Alguém lhe passa instruções muito rápido, ele precisava tomar parte na operação. Deveria pegar o gordini que há instantes deixaram na frente de seu prédio, estacioná-lo na calçada Biblioteca Nacional, atrair a atenção de Luísa e dar-lhe o sinal de que a operação fora suspensa. Tirá-la dali, se fosse possível, não sabiam se era seguida.
Chegaram antes dele. Do lugar onde estacionou, pôde ver que dois homens a observavam. Não houve tempo de se aproximar dela, atrapalharia mesmo se tentasse. Era aquele carro, o gordini cor de ferrugem, que Luísa esperava. Por isso foi tão fácil atrair a atenção dela. No entanto era Filippo que deveria estar ali. Logo que ele saísse, ela iria em sua direção, entraria no carro para seguir o destino que ela sabia. Filippo era o sinal de que a filha do deputado estava com eles, dentro daquele gordini. A tarefa de Luísa era levá-la e dar seqüência à operação.
*

Luísa achou melhor ficar no Teatro até o fim do espetáculo. Guardando por sua segurança, fica boa parte do tempo na penúltima fileira da Galeria embora o seu lugar ficasse no Balcão Nobre. Não havia movimentação suspeita ali e dava boa visão de todo o Teatro.
Ao final do espetáculo, pouco depois das dezenove horas, junta-se a um grupo de jovens que se dirigia à saída. Os cabelos estavam sob um lenço de tom mais escuro que o casaco. Já na calçada em frente ao Teatro, antes que o grupo tomasse rumo, Luísa vê um táxi parado, em meio à massa de gente ainda tonta pelo concerto de Beethoven. Resoluta, toma a frente, entra no táxi, pede que siga em direção a Copacabana. Olha para trás e para os lados. O táxi não era seguido.
Luísa presta serviço à organização de esquerda na qual se metera a filha de um deputado da Arena. Nunca vira a tal garota. Soube que fora capturada pela polícia e presa para depoimentos. Acontecera há cerca de uma semana, um pouco menos. O pai conseguiu intervir e concordaram em soltá-la. Temendo ainda pela segurança dela, o pai, não se sabe como, conseguiu falar com o comando da organização. Pediu que arranjassem um jeito de pegá-la de volta e protegê-la, sentia-se ele mesmo vulnerável. Filippo fora então designado para resgatá-la no momento em que a soltassem. Seria num local de movimento e tudo se passaria de forma rápida, disfarçada. Ele já sabia onde e a que horas. Início da tarde daquele domingo. Luísa entrava na operação neste ponto. Filippo a deixaria num gordini cor de ferrugem em frente à Biblioteca Nacional poucos minutos antes do espetáculo das cinco do Teatro Municipal. Luísa já estaria à espera na calçada do Teatro, tomaria o lugar de Filippo no carro e a levaria dali para o desfecho da operação: embarcá-la para Argélia, no dia seguinte.
*

Desceu na Barata Ribeiro, um quarteirão antes da Cinco de Julho, o novo endereço. Levaria para o apartamento de lá a filha do deputado, onde permaneceriam até a hora do embarque. Entra num bar, liga para o comando. Ouve uma voz feminina. Luísa reconhece, informa que está bem e dá sua localização. A voz do outro lado da linha confirma brevemente o que acontecera. A filha do deputado fora pega por dois homens, pouco antes de Fillipo, às vistas deste. Podia ser alguém da polícia ou de outro grupo. Não se tinha certeza, mas alguém passara informações da operação a eles, era evidente. Não podia dizer mais nada. Pediu que ela fizesse o que deveria. Ligasse apenas no dia seguinte, às nove da manhã, para novas instruções. Luísa oscila no breve instante em que a voz termina a última frase.Oscila porque quer saber de Filippo. Sente um fio de temor pela vida dele. Esse tipo de pergunta não se faz. Talvez soubesse dele quando lhe designassem nova tarefa em outra operação, ou ainda nesta, se ainda não terminara. Quem sabe incluíssem o próprio Filippo.

Assim que desliga o telefone, Luísa sai do bar. Caminha lenta, simulando despreocupação. Começava a escurecer, silêncio na rua residencial, poucas pessoas descem, todas para o lado da Nossa Senhora de Copacabana. O frio aumenta. Não conhecia o apartamento ainda. Rua calma, endereço inconspícuo escolhido para o desenlace da operação. Embora não houvesse mais desenlace algum após o desmanche do plano, Luísa deveria voltar para lá conforme lhe ordenaram.Ordenaram também outras coisas, mas ela não pensa nisso. Luísa para em frente ao prédio em que deve entrar. Um grupo de meninas que brincava de roda na calçada foi chamado para dentro por uma voz de mulher vinda do primeiro andar. A inquietude, a prontidão em Luísa dissipa-se. E o medo que ela sente desde o Teatro, desde antes do Teatro, amainou um segundo. Entra, passa pelo porteiro que não a fixa com o olhar, cumprimenta-o com discrição.
Era um apartamento de dois cômodos no quinto andar, mobiliário moderno mas reservado, prudente.Uma geladeira abastecida, bebidas num pequeno bar. Era usado como garçonière por um empresário e amigos. A movimentação não suscitava comentários do porteiro ou dos moradores, tudo ali se passava em quietude e brevidade. As duas janelas, que dão de frente para a rua, têm persianas com defeito. Mas via-se bem o movimento nos arredores do prédio sem devassar a sala.
Passa das sete e meia da noite. Luísa senta na poltrona larga e estica os pés no pufe. Acende o abajur. Depois apaga. Levanta, anda de um lado para o outro da pequena sala, abre a geladeira. Não consegue engolir meio copo d’água. Vai para o outro cômodo, estica-se na cama de casal. Num impulso se põe de pé. Puxa e torce os cabelos escorridos na nuca, alisa a lã da saia, em movimento de quem espana sujeira. Repete muitas vezes o gesto. Aumenta a tensão nos passos, vai à janela. Nada na rua. Estrelas pontilham levemente o céu. Novamente o que inquieta, o que não cabe no mundo esquadrinhado de Luísa. Aquelas horas vazias eram as piores de todas. Mas tinha que se haver com a estranheza. Podia ser impaciência da espera, mas não. Luísa nunca tem idéia do que será seu momento seguinte. Seu plano, seus próximos passos não a pertencem. Não era também esse tipo de medo. No meio de um movimento que não concluiu, veio a urgência. Não tinha ordem de ninguém, não era certo que fizesse aquilo. Precisava saber de Filippo. Atina de repente que o vislumbre de temor é por ele. Senta-se na cama, depois novamente se deita. Tinha que desistir. Não podia sair do prédio àquela hora.
*
(o conto continua...)