palavra pra que te quero

Monday, April 30, 2012

Frank & Sylvia II- o outro lado

A vida não é assim. O que acontece é que Sylvia cai, do alto das suas nuvens pesadas, diante dos olhos de Frank. Asas de anjo quebram vez por outra. O fato é que Frank não vê Sylvia nos olhos de Sylvia. Frank vê a si mesmo em seus muitos anos atrás diante da queda de um outro anjo. Pudera ser Sylvia. Encantam-lhe os gestos, os olhos, a pele. Frank cai pela própria memória, eis o encantamento maior. Ampara Sylvia na queda pelo tempo que durou o deleite dessa reminiscência. Pelo tempo que durou o deleite de Sylvia com o que ela nem sabe ainda, mas é bom ser amparada em quedas bruscas. Frank estava lá. Passa o momento e Frank decide, porque decisões precisam ser tomadas. Devolve Sylvia à sua queda livre. Sylvia é livre, embora quisesse colar-se ao que Frank nela viu, que não era ela nem um pouco. É provável que Sylvia não vê Frank nos olhos de Frank. Ela não sabe. As ideias estão confusas pela queda. O que quer que a tenha resgatado naqueles olhos, já embaçados pela idade, brilham dentro dela. Ainda. Lampejos que passeiam pelos 28 anos que os separam, os unem, os reparam. Até quando, Sylvia não sabe. Mas voltará àquele bar. Até que termine a queda, agora um pouco mais suave. Assim ela supõe.

Sunday, April 22, 2012

Frank & Sylvia

Insidiosa, gata independente como se queria crer, Sylvia surge.Frank olha, Frank calcula, sem usar medidas além dos olhos atentos nos olhos perdidos de Sylvia. O cenário está repleto de tantas outras, mas Sylvia lá está, com sua fragilidade curiosa. E Frank não fica indiferente. Podiam, sim, podiam ter pertencido à mesma época. Sylvia, pobre Sylvia, sofre de um deslocamento temporal, o que quer sutilmente dizer que não achou nem seu lugar, nem seu tempo, nem sua casa. Mas está no mundo. E os 28 anos que separam Frank de Sylvia são só circunstanciais. Assim queriam que fosse. Sylvia, tão mais nova, se sente assim, perdida na própria juventude que ainda lhe resta. Dizem que é um presente, embora nem sempre ela sinta isso. Nasceu meio velha, como costuma dizer. E Frank ri. Viveu muito bem a própria vida. E não quer ensinar nada a Sylvia, que ouve e percorre tudo como se pudesse se apropriar das histórias de Frank. Frank ainda quer lampejos de primavera, apesar de engastes da idade e tudo mais que não importa, mas aparece na vida, quando a vida avança. Frank vê lampejos dessa tal primavera nos olhos curiosos de Sylvia, curiosa de Frank. Um quer o tempo do outro, mas ambos, juntos, formam um tempo só: o tempo de Frank e Sylvia. E Sylvia nada quer, além de emprestar a Frank a graça, um brilho de coisa fresca, se é assim ele vê. E a companhia fica doce, leve, cada momento um encanto a mais. Não há tempo que os separe. Mas a vida não é assim.