palavra pra que te quero

Sunday, July 26, 2009

Um credo

Creio em dias de sol, na chuva vindoura, nos desastres naturais.
Creio no imponderável, no implausível. Creio na estupidez, nos erros, nas almas perdidas.
Creio no desespero. Creio no medo, na dúvida, nos desatinos. Creio na repetição.
Creio na voracidade, na ausência de medidas. Creio na inconstância, no desejo, na falta mais absoluta.
Creio no caos, nos abismos, no vazio. Creio na queda.
Creio na dor, no desterro, no desencontro. Creio na morte. Creio na morte, no exato fim de todas as coisas.
Creio nos lamentos, no tédio, nas canções de ninar.
Creio no trabalho. Creio na palavra. Creio na sedução.
Creio no momento irrecuperável, no tempo errado e nas memórias súbitas. Creio nos cheiros.
Creio na fragilidade, na quebra, nas partículas subatômicas.
Creio na diluição, na perda, no desalento. Creio no cansaço. Creio no recomeço. Creio na insanidade.
Creio no que dizem do amor.
Creio em você.

Passagem

Desperto. Não sei bem depois de quanto tempo. Andréia dorme tranqüilamente ao meu lado.De bruços, o perfil do rosto, músculos flácidos de sono. Já vi tantas vezes esse quadro, mas não o fixo em minha memória. Há sempre um detalhe novo que no que eu julgava saber e assim ela é outra vez a desconhecida que dorme ao meu lado. Aos poucos eu a reconheço. Bela. Segundo por segundo se torna minha.
Dorme alheia a tudo, de bruços. Alheia à hora e meia que falta para o meu embarque. Chequei o relógio ao lado da cama. Se ela acordar e eu já não estiver aqui a expressão dela vai ser a mesma que faria se desse comigo assim como estou, deitado junto, olhando . Vai apertar os olhos e esboçar o sorriso suspirado que pode ser de resignação, alívio ou derrota. Tanto faz. Melhor sair dessa cama, vestir as roupas, catar a carteira, a passagem do avião. Não trouxe mais que isso, vim certo de que não voltaria atrás. E isso é o que faz doer, desde a superfície da minha pele, que cheira ainda ao seu toque, até o fundo.
Parece há décadas, mas foi ainda hoje, às duas horas da madrugada. Andréia me ligou. Eu estava acordado. Talvez tivéssemos a mesma intenção, mas ela o fez primeiro. Atendi o telefone. Esperava que isso acontecesse um dia. Desculpe, dizia sua voz no outro lado da linha. Eu preciso de você...venha...amanhã, não sei, o mais rápido que puder. Eram palavras assim. Uma frase breve, limpa, quase decisão. Ela me deixou suspenso uns segundos, senti a minha urgência pulsar. Às duas da manhã achei natural ter vontade de estar com ela, um mês separados. Vê-la, sem dizer nada. Vê-la o mais rápido que desse. Então, um pouco depois das oito eu já estava num vôo para o Rio de Janeiro, de volta a nossa casa. Foi o primeiro vôo que consegui.

Abro a porta do apartamento com a minha chave. Ela está sentada no sofá, as pernas dobradas, de camiseta amarrotada. Passara a noite toda ali. Dormira pouquíssimo, denunciam os olhos vermelhos. Há algum frescor na sua aparência, o rosto lavado, cabelos presos acima da nuca. Muito serena, não lhe marca a noite insone. Aponta para a passagem de volta na minha mão. Eu não trazia nada além dos documentos no bolso da calça, as chaves, aquela passagem de volta que eu segurava um tanto aflito. Digo a ela algo sobre a necessidade de estar cedo em São Paulo no dia seguinte. Acontecesse o que fosse, eu precisava aparecer no trabalho.Não diria a ela que fiz uma aposta comigo mesmo no caminho do aeroporto. Tão certo de que ganharia, comprei a tal passagem. Calculei mesmo o tempo: por volta das seis. Em meio ao crepúsculo, pouco antes do fim do dia, acreditaríamos definitivamente que o amor se fora de nós.

Gostava de pensar na imagem do amor feito visitante que chega e se acomoda entre nós. Uma vez refestelado, eis que o visitante gentil e molemente nos deixa e vai a procura de outro pouso. Não é nada disso. Nada há de gentil nessa espécie de êxodo. Lento, viscoso, um usurpador. Gentil, nunca.Um dia vai de vez após ensaios e rodeios. E pouco importamos nós, seus órfãos, viciados com sua presença. Ficam restos que não alimentam. E sem o amor visitante não nos entendemos, eu e ela, um diante do outro. Pranteamos o amor que se foi. É dele que sentimos a falta. Sem ele esquecemos nossos nomes. Estou aqui, diante da minha mulher, bela desde o primeiro instante. Mas quem é ela? E quem sou eu ao lado dela? Não sei se ela pensa assim. Não me importa saber, ela está tão serena.

Precisávamos nos entender ali. O fio tênue dos nossos dias, de tudo que fora nosso, pareceu fácil romper-se agora neste encontro. Seríamos dois corpos inúteis um ao outro. Registros de memória corrompidos por inúmeros outros registros. Nunca mais nós. Restava agarrar a liga esgarçada, com toda minúcia de quem trata com relíquia antiqüíssima. Um manejo errado e a peça se esvai.

Começar pela relíquia viva. Ela me chamou, eu vim. Sento-me ao seu lado, as perguntas usuais sobre como ela passou as duas semanas, respostas gestuais.Olhos baixos, ombros moles.Um suspiro seco. Ela teria o mesmo de mim se perguntasse algo. Estou aqui porque não sei nada sobre o que quero, nada sobre o que resta acontecer, não sei o que lhe perguntar. Ela chamou, eu vim. Começo pelos olhos. Adentro os olhos dela e ela se lança, então.
O quarto desfeito mas ainda familiarmente nosso. Algumas coisas minhas estão lá.Fotos e quinquilharias prestes a sumir do mundo das coisas frescas. Estão por toda parte, em meio a uma desordem onde pode acontecer de tudo. E nós na desordem. Não somos mais que as fotos e quinquilharias.Quantos anos? Não somos diferentes das coisas. Da via dos olhos dela ao corpo todo. Livre da camiseta, o braço liso, peitos, barriga. Fico um tempo aninhado nela, preenchendo buracos de memória só com o cheiro. Logo era o nosso cheiro. Desperto num desejo conhecido, coisa de antes, quando eu não sabia quem era ela. Minha desconhecida de nem sei quanto tempo atrás.

Pudemos trepar assim, devoradores, mudos. Secos pela descoberta. Fora assim um dia, quando mal nos conhecíamos, quando tínhamos tanto desejo de saber quanto de sexo. Era isso, esse brilho que reconheço na pele e as nossas trocas de pernas e línguas. Quando ainda não éramos um para o outro. Atropelos e um gozo intenso que não sabíamos como vinha. Era assim há tempos. Tal como acabou de acontecer.

Permanecemos arquejantes, nossas bocas e olhos tão perto, sorvendo o mesmo hálito. Ela sorri, me abraça, afunda o queixo no meu ombro. Está visivelmente emocionada, não porque chore. Ela me aperta o corpo todo com as mãos, coisa que fazia quando duvidava de alguma felicidade súbita, mesmo coisa banal. Um dia, quando achei que sabia de tudo, acabou. Sinto sono pesado, o que fazer? Ela adormecida, o quarto girando. Não quero dormir, não quero voltar.


Da janela deste sexto andar vejo raiozinhos avermelhados que desenham a parede sem cor do prédio vizinho. Nosso apartamento é lateral, mas gosto de ver o pôr do sol daqui. Hoje, verão, o sol se põe às 18:55. Faltam cinqüenta minutos para o vôo. Fecho a porta do quarto com cuidado. Nenhum som vem lá de dentro.Saio. Não é preciso impulso, rasgo de coragem contra a hesitação. Não há hesitação.Era para ser assim? Transponho a porta da sala, tranco a fechadura, retiro do meu chaveiro as chaves do apartamento e meto-as debaixo da porta. Tão simples. Agora é seguir até o elevador e em segundos estarei fora daqui. O que ela pensa? O que vai fazer ao ver o apartamento vazio, sem despedida, sem deter início de choro, a promessa vaga de telefonar desviando os olhos? Não me importa mais o que ela pensa, o que vai fazer no apartamento vazio. O fim veio antes, por si mesmo. Insinuou-se na nossa carne, nos cheiros que produzíamos juntos. Exalamos o fim de nós mesmos num dia de desejo ordinário. Um dia como muitos outros. Não era mais suficiente sem o transbordamento.

Felizmente um táxi parado na rua de baixo, onde há muito movimento esta hora. Estarei em São Paulo antes das nove.